Relato de Mira Forjas, ferreiro de terceira geração, sobrevivente da queda de Sinelândia: Eu estava na fila há seis horas quando a ordem chegou. 'Prioridade para cidadãos classificados A e B.' Eu era C — trabalhador qualificado sem propriedade. Os guardas da evacuação eram conhecidos meus. Trabalhei com o pai de um deles. Isso não importou. A ordem era a ordem. Fui até o depósito de bronze onde havia trabalhado vinte anos. Peguei o que coube numa mochila: ferramentas pequenas, algumas ligas especiais, registros técnicos que ninguém mais iria querer mas que eu não conseguia largar. E fui a pé. A estrada para Porto Novo estava cheia de gente que fez a mesma escolha. Uns que poderiam ter esperado a fila formal desistiram quando viram que a fila formal significava morte certa. Chegamos mais de nós do que deveria, se o sistema tivesse funcionado como planejado. O que perdi: minha casa, minha oficina, meu bairro, os registros de meu pai e meu avô. O que trouxe: as ferramentas e uma raiva que não sei o que fazer com ela.
Mesa adulta
Somos todos adultos aqui. O conteúdo e o jeito como a gente joga são pensados para quem tem 18 anos ou mais.
Não é nada contra os mais novos — é que a gente solta muito palavrão e o papo na mesa é de gente grande.